Painéis de Regência Coral

Uma receita da Elza
Samuel Kerr, fevereiro de 2010.

Os Painéis Funarte de Regência Coral foram uma solução mágica idealizada por Elza Lackschevitz quando estava à frente do Projeto Villa-Lobos. Com esse projeto a Funarte pretendia, na década de 1980, apoiar os corais brasileiros e, para conhecer suas necessidades, suas aspirações e seus sonhos, Elza Lackschevitz convocou os cantores e regentes para um encontro a que deu o nome de Painel – um tempo de exposição, um espaço de mostra, um lugar de reflexão – onde temas de interesse dos corais seriam tratados por lideranças do meio musical brasileiro.

Foi um sucesso. Dez Painéis sucederam-se entre 1981 e 1993 e, durante esse tempo, estimulou o trabalho de regentes e corais de todos os Estados do Brasil e, mesmo após esse período, por muito tempo ainda contribuiu para vivificar o canto coral brasileiro. Tão grande foi o impulso dado naquela época que o gesto inicial de Elza Lackschevitz, apoiado por Edino Krieger e Valéria Peixoto repetiu-se em nova série, desde 2007, nas mãos de Eduardo Lackschevitz, com o apoio de Maria José Queiróz e Flávio Silva, fazendo retornar com toda força a solução, a receita da Elza.

Como era essa receita?
Simples. Reunir as lideranças do canto coral para conversar; depois, perguntar quais os assuntos a tratar, trocando informações, sempre abrindo espaços e deslocando o foco de atenções dos grandes centros para todos os recantos do país.  Um tempero de sucesso! Um encontro anual que passou a ser ansiosamente aguardado e longamente degustado.

Não havia ainda a Internet e poder informar-se sobre canto, repertório coral, novos arranjos, dinâmica de ensaio, montagem de programa era uma oportunidade única oferecida pelos Painéis. Ao abrir as inscrições, os telefonemas, telegramas, telex (insisto, não havia internet); as vagas eram preenchidas em um instante.

O primeiro Painel foi no Rio de Janeiro, em 1981 e o último daquela série, em São Paulo, na USP, em 1993, depois de ter rodado por Brasília (DF), Nova Friburgo (RJ), Vitória (ES), Cuiabá (MT), Londrina (PR) e Goiânia (GO). O sucesso de um gerava o seguinte, sempre com o cuidado da Elza em ouvir o que os participantes tinham a dizer e como gostariam fosse o próximo Painel. E entre um e outro aconteciam cursos de reciclagem e laboratórios, onde tudo era experimentado.
Uma receita que era sempre reinventada. Entretanto, Elza não dispensava a presença de certas essências, figuras pontuais do canto coral brasileiro, para proferir palestras, dirigir oficinas ou simplesmente participar sentado ao lado de um cantor anônimo, fascinado por estar convivendo com pessoas que só conhecia por nome na música, nome de sala ou autor de livro. Assim passaram pelos Painéis, Cleofe Person de Mattos, Nelson Mathias, José Vieira Brandão, Orlando Leite, e muitos outros, cujos nomes exigiriam um espaço maior para este artigo.

Nessa receita havia também ingredientes com nomes inventados, assim como “sargento”, “corão”, “corel”.

Para cada painel era designado um coordenador, com a mais difícil das tarefas: tentar fazer com que tudo acontecesse conforme o horário estabelecido! Ah! Como era difícil cortar discussões acaloradas. Ou, interromper uma oficina com assuntos interessantíssimos, ou ainda, avisar o maestro do Corão que ele só teria mais 5 minutos de ensaio! Tornava-se uma figura tão antipática que só podia ser um sargento disciplinador – Lá vem o sargento acabar com a nossa emoção!
Corão. Era a grande assembléia coral. Todos os participantes, cantores e regentes nas mesmas fileiras sob o comando de um colega, escolhido com antecedência e que desenvolvia um repertório a ser apresentado no final do Painel. Seria uma interessante coletânea de obras corais se tivesse sido publicado tudo o que o Corão de cada Painel cantou. Houve primeiras audições de composições originais e de arranjos, escritos especialmente para o Painel. Soaram também obras pouco cantadas, pois era fascinante, para o regente escolhido, a oportunidade de ter à sua frente um coral tão grande com tantos regentes, com tão boa leitura! E mais! Com a assistência de uma professora de canto, pioneira na época em abraçar o canto coral como o seu campo de trabalho e estudo, Lúcia Passos. Eu me lembro da sua preocupação em conduzir o aquecimento vocal de forma a entregar o Corão na tonalidade da primeira música a ser ensaiada pelo regente. Lembro-me também das soluções vocais que ela apresentava  durante todo o ensaio.

Muitos assuntos, alguns difíceis e até sofridos, vividos pelos regentes e seus corais, eram apresentados nas reuniões ou mesmo nas conversas informais, tais como contratos de trabalho, horário de ensaio para os corais de empresa,   dificuldade em conquistar vozes masculinas, assim como a emergente questão dos direitos autorais de execução em concertos, gravações ou de edição de partituras. Emergente porque estava sendo difícil convencer editoras a publicar obras corais e inimaginável pagar direitos aos compositores de MPB pelas apresentações dos arranjos de suas canções em concertos muitas vezes sem cachê… Não eram assuntos tão novos, mas exigiam abordagens novas…

Por isso, pelas questões sem solução, todos os regentes queriam xerocar os arranjos ainda em manuscrito, pois não haveria outra oportunidade de trocar repertório senão no Painel. E, para facilitar, foi instalado o Corel, um misto de cordel, coral e varal, sim, varal, muitos varais, onde ficavam expostas as partituras para encomendas em xerox! Será que deveríamos lembrar  do Corel? Penso que sim. Antes de apontar o erro pelo uso do xerox , vamos indicar o acerto daquela prática naquele momento. O Painel era um divulgador, para o Brasil inteiro, das experiências corais de vários pontos do país. Possibilitava que a voz do Cordel pudesse ser ouvida em toda a parte! O cantor do Cordel era multiplicado em um Coral de milhares de cantores. Um Corel.

A receita da Elza exigia, antes de mais nada, um preparo cuidadoso do forno antes da mistura dos ingredientes.

Sim, ela chamava aos escritórios da Funarte, no Rio de Janeiro, vários regentes, muito antes da edição do Painel, para análise do programa, escolha dos tipos de oficina, leitura das opiniões dos participantes do Painel anterior e pedia sugestões para a escolha do repertório que atendesse aos vários tipos de corais em cada região do país.  Eu me lembro de participar desse conselho consultor ao lado de José Pedro Boessio, Juan Serrano e Oscar Zander. Que bom poder  lembrar desses consultores.

E lembrar também do Marcos Leite. Em 1985 o Corão cantou um jingle criado por ele: Friburgo hospeda o Canto Coral no 5º Painel Nacional/Música, músicos/Mágicos, mágicas/Há muito som pelo ar… Aleluia!

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