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Angela Maria: uma despedida

Funarte lamenta a morte da maior Rainha do Rádio do país, que contabilizou mais de cem discos, lançados desde a década de 50 – uma das mais populares e queridas cantoras brasileiras

Publicado em 4 de outubro de 2018 Imprimir Aumentar fonte
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Foto: capa do centésimo LP da cantora, "Apenas Mulher" (1980)

No dia 29 de setembro de 2018, em São Paulo, Capital, calou-se a voz de uma das mais famosas e melhores cantoras do Brasil: Angela Maria. Ela faleceu aos 89 anos, internada há 34 dias, com infecção. A Fundação Nacional de Artes – Funarte registra aqui seu pesar e presta uma pequena homenagem à mais votada Rainha do Rádio, na “Era de Ouro” da canção romântica, nos anos 50. A artista, que, desde então, mantinha grande número de fãs em todo o país e no exterior, afirmava ter mais de 60 milhões de discos vendidos e marcou várias gerações.

Trabalhou até seu último ano de vida e 67 anos de carreira.“Chegou a ser eleita por unanimidade, em pesquisa [...], a cantora mais popular do Brasil. Dedicou-se a interpretar principalmente sambas-canções, mas também gravou muitos boleros, tangos e versões de baladas e músicas espanholadas e italianas. Ao longo da carreira gravou mais de 100 discos entre 78 rpm, LPs e CDs [...] Foi talvez a única cantora da chamada ‘Era do Rádio”, dos anos 1950 que consegiu obter grandes sucessos de vendagem e execução nas décadas seguintes”, comenta o crítico Ricardo Cravo Albin, em seu Dicionário da Música Popular Brasileira. Também atuou e cantou no cinema, de 1952 a 1975, em 21 filmes, entre eles Rua sem Sol, de Alex Viany (1954) e Portugal…minha Saudade (Mazzaropi).

Fugia de casa para cantar

Com o nome de batismo de Abelim Maria da Cunha, Angela Maria nasceu em 13 de maio de 1929, em Conceição de Macabu, distrito de Macaé (RJ). Começou a cantar na adolescência, juntamente com todos os seus irmãos, no coro da Igreja Batista do Estácio, onde seu pai, Albertino Coutinho da Cunha, era pastor. “Sua voz, porém, era a mais apreciada”, avalia R. Cravo Albin. Na época, a jovem trabalhava numa grande fábrica de lâmpadas, como inspetora. Mas, em época de pleno sucesso das cantoras do rádio, o sonho da jovem era tornar-se uma delas; e participar de programas de calouros. Tudo isso foi severamente reprovado por sua família. “…Levei muitas surras de minha mãe porque ela não queria de jeito nenhum”, disse Angela Maria ao antigo jornal O Pasquim – acrescentando que fugia de casa para participar das seleções. O pai não admitia que sua filha fosse artista (carreira mal vista na época). Mas a moça estava decidida a cantar profissionalmente e a ter sucesso.

Grande fã de Dalva de Oliveira (então no auge), passou a imitá-la, ganhando concursos, um atrás do outro. Mas “ninguém a queria contratar, já que era quase cópia” de Dalva, relata Cravo Albin. Porém, resolvida, Abelim largou escola, trabalho e igreja, aos 20 anos e, em 1948, saiu de casa e foi morar com uma irmã, no bairro de Bonsucesso – Zona Norte da cidade. Conseguiu cantar na famosa casa noturna Dancing Avenida, onde teria sido descoberta pelos compositores Erasmo Silva e Jaime Moreira, que a levaram para a Rádio Mayrink Veiga.

De caloura das rádios Nacional e Tupi ao estrelato

Iniciou sua carreira profissional participando de diversos programas radiofônicos – com o pseudônimo de Angela Maria, para que a família não descobrisse –, inclusive na Rádio Nacional. Na Tupi, foi candidata do famoso programa de calouros de Ary Barroso. Em sua primeira apresentação na emissora, “esqueceu a letra, saiu do ritmo e, quase aos prantos, cantou o samba-canção ‘Fuga’, de Renato de Oliveira. Pensou que perderia o emprego, mas a produção lhe deu o prazo de uma semana para criar um repertório próprio e deixar de imitar Dalva de Oliveira” destaca o Dicionário da MPB. A carreira de sucesso da jovem, também no cinema e na TV, começava ali.

“Sua vida pessoal, sempre muito atribulada e frequentemente rastreada pela imprensa, foi marcada por muitos casamentos”, diz Cravo Albin. Não teve filhos. Contudo, adotou algumas crianças, “as quais sempre considerou como filhos legítimos”, acrescenta o estudioso.

Angela Maria despontou para o estrelato nos anos 1950. Nessa época, recebeu do Presidente Getúlio Vargas o apelido de “Sapoti” – por ter, segundo o político a “voz doce” e a cor da fruta. Gravou seu primeiro disco em 51, pela RCA Victor, com os sambas Sou Feliz, de Augusto Mesquita e Ary Monteiro, e Quando Alguém vai Embora, de Cyro Monteiro e Cândido Dias da Cruz e outras músicas desses autores. Gravou também boleros e sambas de Oton Russo. Herivelto Martins, entre outros. Sua versão do samba Não Tenho Você, de Paulo Marques e Ary Monteiro, bateu recordes de venda e marcou o início da sua primeira fase de grande popularidade, começo de sua vitória na carreira.

A maior das “rainhas do rádio”

Em 1952, lançou vários sambas. No ano seguinte, gravou faixas com letras de Dorival Caymmi, e outros; transferiu-se para a gravadora Copacabana; e brilhou em interpretações de Chocolate e Américo Seixas, Paulo Menezes, Milton Legey, Roberto Lamego, Valdir Rocha e Nelson Wadekind. Cantou ao lado de Caymmi, no Rio de Janeiro, na Boate Casablanca. Em 1954, seu êxito foi total com o bolero Recusa, de Herivelto Martins, entre outras canções bem conhecidas; e ficou famosa também a música Rua sem Sol (Mário Lago e Henrique Gaudelman e Vida de Bailarina (Chocolate/ Américo Seixas). Foi escolhida como a “Melhor cantora do ano” e também eleita “Rainha do Rádio”, com 1.464.906 votos – a maior votação do concurso em todos os tempos.

Em 1955, foi escolhida “Rainha dos Músicos”, tendo gravado tangos e sambas-canção, sucessos de Ivon Curi, Eduardo Patané e Floriano Faissal e Valdir Rocha, entre outros. Também nesse ano, foi escolhido como um dos dez mais populares do carnaval o samba Minha vez chegou! (José Batista, Manoel Pinto e Noel Rosa de Oliveira), lançado com a voz de Angela. Ainda em 55, ela foi escolhida por uma coluna crítica do Jornal O Globo como “a melhor cantora do ano” recebendo como prêmio um Disco de Ouro.

Gravou, em 1956, três LPs em dueto com João Dias, com algumas músicas da dupla David Nasser e Herivelto Martins – num deles está a famosa Mamãe e outras valsas; e toadas, como Papai Noel esqueceu, além de sambas-canção –. Nesse ano, alcançou um novo sucesso, com Fala Mangueira, samba de carnaval. Também em 56, lançou dois LPs, com peças como Eu fui Ver, (Ary Barroso); e clássicos como João Valentão (Dorival Caymmi); Lábios que Beijei (J. Cascata e Leonel Azevedo); Ave Maria no Morro (Herivelto Martins); Vingança (Lupicínio Rodrigues); Feitiço da Vila (Vadico e Noel Rosa), e Terra seca (Ary Barroso), entre outros. No mesmo ano, foi escolhida pela revista Radiolândia como “a melhor cantora do ano”.

A cantora de Babalú, Na Baixa do Sapateiro e tantos sucessos

Em 57, gravou Dora (Dorival Caymmi); Saia do Caminho e Promessa (Evaldo Rui e Custódio Mesquita); Carinhoso, de Pixinguinha e João de Barro (Braguinha); e Canta Brasil (David Nasser e Alcyr Pires Vermelho); entre outras canções marcantes. Ganhou o prêmio Roquette Pinto de melhor cantora do ano. Em 1958, gravou as músicas de maior destaque à época, como Na Baixa do Sapateiro, de Ary Barroso; e a famosa Babalú, de Margarita Lecuona, um de seus maiores marcos. Também nesse ano, gravou Duas Contas (Garoto); Por Causa de Você (Dolores Duran e Tom Jobim); Se Todos Fossem Iguais a Você (Jobim e Vinícius de Moraes), entre outras.

Em 1959, lançou dois LPS, com obras como Carlos Gardel (David Nasser) e, novamente, Mamãe; foi campeã do Carnaval Carioca com o samba Rolei, rolei, (Milton Legey e Edu Rocha). Em 1960, gravou o LP Angela Maria Apresenta Fernando César e Seus Amigos, com obras do compositor, entre elas Outro Amor Para Toda Vida, parceria com Baden Powell. No ano seguinte, lançou dois LPs. Gravou mais dois em 1962, em retorno para a RCA Victor, um deles com Já era Tempo (Ary Barroso e Vinícius de Moraes) e a marcha A Lua é Camarada (Armando Cavalcânti e Klécius Caldas), um dos maiores sucessos do carnaval de 63. Nesse ano, lançou mais dois discos – um deles com músicas em espanhol – e, em 64, mais um. Em 1965, voltou para a gravadora Copacabana, o que gerou mais um LP e, em 66, outros três – um deles só com boleros, com clássicos como Vereda Tropical (Gonzalo Curiel), Cu-cu-rru-cu Paloma (Tomás Mendes); e outro com o samba-canção Cinderela, de Adelino Moreira, muito aclamado.

Em 67, fez sucesso com a música Rancho de Lalá (David Nasser/João Roberto Kelly) e fez outro filme. Dois anos depois, lançou o LP Angela em Tempo jovem, no qual gravou compositores da Jovem Guarda, entre eles Nelson Ned, Antônio Marcos, Agnaldo Timóteo (seu antigo motorista na década anterior) e Sérgio Reis.

A marca da Rainha: Gente Humilde e outros sucessos da MPB

Em 1970, gravou um LP cujo marco foi Gente Humilde (Garoto), com letra de Vinícius e Chico Buarque, somada a obras de Noel Rosa; Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle; Dorival Caymmi; Edu Lobo e Torquato Neto; Pinto Martins e Zequinha de Abreu; e ainda Martinha e Caetano Veloso. Entre 71 e 76 gravou quatro LPs, com obras de Vinícius e Toquinho; Chico e Vinícius, Luiz Melodia (Pérola Negra), Taiguara, Antônio Carlos e Jocafi, Benito di Paula, Caymmy (Marina) e Wando, entre outros.

Tango pra Teresa (Jair Amorim e Evaldo Gouveia), foi outro grande êxito, gravado em 1975. Dois anos depois, lançou os LPs Os mais Famosos Tangos e Os mais Famosos Fados – no primeiro estão, Ouvindo-te (Vicente Celestino) e Donde estás Corazón, de P. Berto, L. M. Serrano (versão de Ubirajara Silva), entre outras; no segundo disco, clássicos portugueses, como Nem às Paredes Confesso, de Trindade e Antônio Ribeiro. Também em 77, participou do primeiro dos vários shows em dupla com Cauby Peixoto, sendo este, muito aplaudido, sugestão de Cravo Albin ao diretor Augusto César Vannucci, que gerou um disco. No ano seguinte, foi para a EMI/Odeon, onde gravou com Agnaldo Timóteo, o que repetiu, em 79 – gravando faixas como Meu Nome é Ninguém (Luiz Reis e Haroldo Barbosa); e clássica guarânia Cabecinha no Ombro (Paulo Borges).

Em 1980, lançou o LP Apenas Mulher, com faixa título de Gonzaguinha e faixas-ícones de grandes nomes – novidades à época, como Grito de Alerta, do compositor. Cantou esse repertório num especial de TV de enorme audiência, acrescentando Miss Suéter (João Bosco e Aldir Blanc) e canções lendárias de seu repertório. Dois anos depois, gravou o LP Angela e Cauby, em duetos com o cantor e incluiu Começaria Tudo Outra Vez (Gonzaguinha), Meu Bem Querer (Djavan), Matriz ou Filial (Lúcio Cardim), e outras obras conhecidas; além de trabalhos da dupla Tom e Vinícius e outros. No mesmo ano, gravou outros dois LPs – um deles com música dos parceiros Paulo César Pinheiro e Mauro Duarte; e de muitos outros.

Angela Maria interpreta Dolores Duran e outros ícones

Em 1983, lançou disco em que canta A Noite do Meu Bem (Dolores Duran), Ronda (Paulo Vanzolini) e Horizontes (Antônio Marcos e Mário Marcos); além de peças de Paulo Massadas e Michael Sullivan, Paulo Leminski e da dupla Fred Góes e Moraes Moreira. Nos anos de 85 e 87, lançou dois LPs, interpretando Odair José e Maxine; Ivan Lins e Vitor Martins; Sílvio César e Erasmo Carlos; e Cazuza, entre outros. Gravou, em 1992, na BMG, o CD Angela e Cauby ao Vivo, também com duetos, como Ave Maria no Morro; Onde Anda Você (Hermano Silva e Vinícius), e clássicos da carreira de cada um, como Conceição (Dunga e Jair Amorim). Em 94, foi a homenageada do Prêmio Sharp e enredo da escola de samba Rosa de Ouro (SP).

Em 1996, lançou o álbum Amigos, cantando suas faixas marcantes ao lado de grandes personalidades da MPB. Ele que inclui obras de mestres, como Ataulfo Alves. Apresentado por Ricardo Cravo Albin, vendeu mais de 500 mil cópias; recebeu o Prêmio Sharp Melhor Cantora Popular; e, segundo o especialista, recuperou o prestígio da artista junto à crítica. O prêmio repetiu-se em 97, pelo CD Pela Saudade que me Invade, tributo a Dalva de Oliveira, com clássicos do “Rouxinol do Brasil”, como Errei Sim (Ataulfo Alves) e Bandeira Branca (Laércio Alves e Max Nunes). Em 99, gravou CD em dupla com Agnaldo Timóteo, com canções marcantes como Não se Vá (Tu t’em Vas), e Ninguém é de Ninguém (Toso Gomes, Umberto Silva e Luiz Mergulhão), entre outras. O trabalho contou com participações de artistas como Fagner, Chitãozinho e Xororó, Fábio Jr. (em Alma Gêmea) e Peninha.

Anos 2000: 50 anos de trabalho contínuo

Em 2001, entre as homenagens por seus 50 anos de carreira, Angela Maria participou de um desfile nas ruas, organizado pela Banda de Ipanema. Os tributos continuaram no ano seguinte, num show no Teatro Rival BR, acompanhada por músicos renomados. Em 2003, lançou outro CD, com músicas de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, Luiz Melodia e de Lulu Santos e Nelson Motta, entre outros. Em 2010, foi lançado, pela  EMI Music, o DVD Angela Maria: Abelim Maria da Cunha, contendo um show de 1980, em que ela interpreta grandes nomes, como Ivon Cury e Ângela Ro Ro – com participação da artista; e de João Bosco. Em 2011, com 82 anos e 60 de carreira, depois de sete anos sem gravar, a maior das rainhas do rádio lançou o CD Eu Voltei.

Em 2013, foi lançado o DVD documental A estrela da canção popular, em parceria com o Canal Brasil (EBC), que inclui imagens da artista, shows, clipes, filmes, entrevistas e outras reproduções e suas interpretações históricas de compositores como Antônio Maria, Silvio César e outros. no Teatro Net Rio. No mesmo ano, o Teatro Rival recebeu sua apresentação Eu Voltei, em que, acompanhada pelo violonista Ronaldo Rayol, Angela relembrou canções marcantes. Em 2015, lançou o CD Angela à Vontade com Voz e Violão, novamente ao lado de Rayol, no qual interpretou clássicos da música popular brasileira, de Benito di Paula, Cartola (As Rosas Não Falam) e outros – o que produziu uma turnê nacional.

Uma voz que ultrapassou os estilos

Em 2017, gravou o CD Angela Maria e as Canções de Roberto & Erasmo. Em 2018, às vésperas de seus 90 anos, com 67 anos de carreira, fez um show com esse repertório e com seus maiores sucessos; e recebeu duas indicações ao Prêmio da Musica Popular: uma de Melhor Álbum na categoria Canção Popular e outra na de Melhor Cantora.

“Seu repertório até 1962 é considerado por alguns críticos como mais sofisticado, embora tenha sido sempre uma cantora popular”. comenta Ricardo Cravo Albin, no Dicionário da MPB. Ele avalia que, na década de 1970, Angela Maria não foi valorizada pela crítica. “Nessa época, muitos jovens compositores consolidavam sua carreira dentro de uma estética mais moderna, introduzida pelos movimentos da bossa nova e da tropicália, o que não a abalou. Seguiu dentro de seu estilo de cantora romântica, com ênfase em boleros e sambas-canções. Continuou sendo cultuada por sua legião de fãs, embora tivesse menos espaço na mídia”, conclui o pesquisador.

A Funarte deixa esta matéria como pequena homenagem a Angela Maria, eterna rainha da música brasileira.

Acesse aqui vídeo sobre a mais atual biografia da artista