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Por dentro do Centro de Artes Visuais da Funarte com o diretor Xico Chaves

Relacionado a: Artes Visuais, Funarte
Publicado em 12 de abril de 2017 Imprimir Aumentar fonte
Xico Chaves. Foto S. S. Castellano
O diretor do Centro de Artes Visuais da Funarte, Xico Chaves. Foto: Sebastião Castellano

Com o objetivo de aproximar o público, os servidores e os colaboradores dos diversos setores da instituição, a entidade lançou a série de entrevistas Por dentro da Funarte. Nesta edição, o entrevistado é o diretor do Centro de Artes Visuais (Ceav), Francisco de Assis Chaves Bastos, o Xico Chaves.

Em sua segunda gestão como diretor do Ceav, Xico Chaves implantou projetos expositivos de repercussão no país e no exterior. O artista visual também foi responsável pela criação da Rede Nacional Artes Visuais, do Programa Conexões Artes Visuais e do programa de edições contemporâneas, em vídeo, livros, DVDs e CDROMs. Na Fundação Nacional de Artes – Funarte foi ainda coordenador da Assessoria Especial da Presidência, dirigindo o programa Microprojetos Mais Cultura Funarte/Minc/SAI – direcionado à região do Semiárido e Amazônia Legal. Foi diretor da Divisão de Audiovisual do Governo do Rio de Janeiro; assessor e curador do Museu Nacional de Belas Artes (RJ) e diretor, professor e coordenador de eventos da Escola de Artes Visuais do Parque Lage (RJ).  Atualmente integra o Conselho da Fundação Oscar Niemeyer (RJ).

Por dentro da Funarte: Xico Chaves, como você avalia o atual cenário das artes no Brasil?

Estamos presenciando, neste início de século, um dos momentos mais representativos da produção artística em toda a história da arte. Temos a oportunidade de vermos, simultaneamente e habitando o mesmo espaço e ao mesmo tempo, toda a diversidade de expressões concebidas e praticadas, desde que se considerou chamar de arte formas de comunicação não convencionais de alto poder de expressão, sedução e exercício do livre pensamento.

Não apenas por estarmos vivendo um momento em que a tecnologia começa a disponibilizar informações com velocidade e conteúdos inimagináveis, mas também porque se está exercendo a síntese, a análise e desdobramentos de ideias e linguagens revolucionárias, surgidas no final do século XIX, início e final do século XX. Vieram irreversivelmente tomando corpo em dimensões diversas, potencializando sentidos e incorporando outras áreas do conhecimento, sem exclusão das formas de expressão já exercidas e consolidadas.

O que se concebeu como transdisciplinaridade desdobra-se para a transterritorialidade, onde as fronteiras entre os sistemas e áreas de expressão passam a se desfazer sem que cada segmento convencional perdesse sua natureza, sua especificidade.

Para exemplificar: expressões artísticas como a performance, a instalação, a intervenção urbana em espaços diversos, a interferência artística, a fotolinguagem, o objeto, o poema visual, a vídeo-instalação, a sonoridade, a arte por meio de ferramentas digitais, o pensamento crítico, os coletivos, a macroprojeção e tantas outras formas de manifestação artística, vieram ampliar e se agregar e dialogar com a pintura, a escultura, a gravura, a fotografia, o desenho, a escrita, as artes gráficas, as manifestações populares e étnicas já consolidadas. Formou-se assim, um campo expandido de linguagens que estreitaram relações com as artes cênicas, a música, o cinema, a TV e com outros campos do conhecimento.

Por dentro da Funarte: Seguindo por este caminho, do estreitamento das relações com os diversos tipos de arte, como você conceitua o trabalho do Centro de Artes Visuais da Funarte? Pode citar alguns desafios e méritos do setor nesse processo de expansão e queda de fronteiras?

O Centro de Artes Visuais foi concebido, em 2003, para corresponder a essa transição e incorporação ao permitir que uma instituição pública pudesse estar em sintonia com tecnologia e os conceitos estéticos e filosóficos sem estabelecer fronteiras ou limites, controle e direcionamento, e que atuasse como instrumento para a difusão e debate de todas essas formas de expressão, transformação e interação junto à sociedade. As artes visuais se tornaram o catalizador básico desse processo porque historicamente praticaram, com maior intensidade, a liberdade de pensamento, expressão e experimentação. Também porque em seu suposto “isolamento” praticaram reflexões mais complexas e absorveram conceitos e ideias representativas de seu tempo com menor restrição, mesmo sob controle, embora tenham sido, ao contrário do que se convencionou estabelecer, a forma de comunicação mais popular. Ainda não reconhecida em toda sua potencialidade.

Coube às artes visuais e à sua dimensão poética esse papel de integrar, com maior intensidade e liberdade, às suas linguagens e práticas, a ciência, a tecnologia, a filosofia, a política e tudo o que se considerou ser criação, expressão, manifestação e representação. Isso se evidencia com clareza na arte contemporânea que, ao contrário das “vanguardas” autoafirmativas, produziu necessárias rupturas com as tendências e escolas anteriores. As artes visuais passaram a considerar, em um único território e à sua maneira, todas essas formas de expressão, libertando-se do manifesto para se tornarem manifestação.

Para que essas ideias pudessem ser viabilizadas em projeto, o Ceav propôs, e instituiu, ao longo do tempo, um sistema de gestão e gerenciamento inovador que correspondesse ao processo criativo e a um conceito de cultura pluridimensional, escapando dos procedimentos padronizados, imprescindíveis e prioritários a outras áreas consideradas técnicas e estratégicas. Este sistema, ao ser implementado, reuniu uma série de experiências coletivas e individuais e apontou para as múltiplas expressões de um país em permanente transformação, complexo em sua origem e desenvolvimento, composto por inúmeros padrões de comportamento e assimilação de informações. O Ceav exerceu assim, sua função educativa, considerando as individualidades, a coletividade e a liberdade de expressão como referências, as parcerias como co-responsabilidade e os desdobramentos autônomos como forma de se propagar em modelos diversificados.

O formato de planejamento, programação, gestão e orientação utilizado referenciou-se na dinâmica interpessoal com suporte informatizado e midiático em redes autônomas e, mesmo com poucos recursos, otimizou as ações sem perder seu alcance. Trabalhou nos limites orçamentários, administrativos e logísticos. Estabeleceu uma relação público-agente cultural considerando as capacidades reais, deixando em aberto as adequações regionais e locais. Procurou o público-alvo disponível e formador de opinião, não se atendo à quantidade de pessoas, mas à qualidade dos programas e dos protagonistas. A intensidade das trocas de conhecimento resultou, na maioria das ações, em sistemas interativos de criação e comunicação com o indivíduo, estimulado a intervir, e não apenas como espectador.

No entanto, a partir de 2009, este modelo de gestão, no que concerne às novas orientações administrativas, sofreu restrições e, ao contrário do que se havia previsto, passou a ser excessivamente controlado, de forma incompatível com a liberdade inerente à sua própria natureza e contemporaneidade. Embora as ideias, concepções estéticas e conceituais tenham sido preservadas, por serem historicamente irreversíveis, as instituições artísticas e culturais governamentais perderam grande parte de sua mobilidade. Cabe aqui uma reflexão e uma análise mais ampla quanto à orientação governamental padronizada que ainda não percebeu as diferenças entre a dinâmica  artística e cultural aberta, multíplice, diversificada e heterogênea e a dinâmica das instituições,  que exigem maior controle e planejamento estratégico convencional.

Por dentro da Funarte: Qual a previsão de orçamento para os programas do Ceav em 2017?

Temos uma previsão de R$ 5.250,000 (cinco milhões duzentos e cinquenta mil reais) de orçamento próprio e Fundo Nacional de Cultura, para três programas priorizados para 2017: Prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia, Prêmio Funarte de Artes Plásticas Marcantonio Vilaça e Programa Rede Nacional Artes Visuais.

Por dentro da Funarte: Como é a relação entre o Ceav da Funarte com o público externo – aproximação, troca de experiências e apoio aos artistas visuais –, e como se dá esta interação?

O Centro de Artes Visuais foi criado a partir da implantação da nova estrutura da Funarte, refundada em 2003, assim como os outros Centros (Música, Artes Cênicas e Programas Integrados). Sua concepção parte de debates e proposições que já estavam ocorrendo no meio artístico, dos quais participei ativamente, dentre eles as reuniões do grupo Artes Visuais/Políticas. Participavam destes encontros artistas, curadores, críticos, produtores e demais profissionais. Portanto, organizamoso Seminário Arte/Estado (publicado em livro) com a participação destes profissionais e artistas, com posicionamentos diversos, provenientes de diversas regiões do país.

Quando foi formalizado e instituído o Centro de Artes Visuais, do qual fui nomeado diretor, criamos programas abrangentes que pudessem atualizar o desempenho das artes visuais na Funarte ao longo de sua história. Foram apresentados projetos de alcance nacional com modelos que possibilitassem agilidade em sua execução. De forma a atender, em pouco tempo, a enorme diversidade do campo e sua expansão permanente e incorporação de linguagens que se consolidavam e conquistavam definitivamente diversos territórios de expressão, além das linguagens convencionais anteriores.

Embora fossem disponibilizados poucos recursos para a dimensão atualizada do aparentemente complexo campo das artes visuais no século. XXI, foram concebidos e implementados os seguintes programas referenciais: Rede Nacional Artes Visuais; Programa e edital de ocupação das galerias das Regionais Funarte (Rio de Janeiro, São Paulo e Distrito Federal); Edital Conexão Artes Visuais MinC/Funarte/Petrobras; programa Editorial Artes Visuais (com as coleções Pensamento Crítico, Fala de Artista e Reedições; Prêmio Marcantonio Vilaça de Artes Plásticas e programas de participação internacional, apoio a projetos especiais com demandas do MinC e programas de mapeamento atualizado da arte contemporânea em todo o território nacional. Estes projetos integravam ações em todos os campos da artes visuais, incluindo oficinas, pesquisas, palestras, documentação em foto e vídeo, catálogos, intervenções, diversos eventos regionais e locais, dentre eles: circulação, intercâmbio, residências e muitos outros desdobramentos.

Por dentro da Funarte: Você poderia citar alguns programas, projetos ou exposições do Centro de Artes Visuais que mereçam destaque? Como o público externo pode ter acesso a esse legado?

Os projetos e programas referenciais se desdobraram ao longo das diversas orientações posteriores por meio de editais e, recentemente, curadorias especiais, emendas parlamentares e outras ações. Como, por exemplo, a Bolsa Crítica de Produção em Artes Visuais; Edital Marc Ferrez de Fotografia (recriado); Programas Procultura (Bibliotecas Básicas de Artes Visuais, Periódicos e Revistas Sobre Artes Visuais, Pesquisa, Mapeamento e Documentação de Acervos, Arquivos e Legados da Obra de Artistas Brasileiros Falecidos) e Programa Desafios Contemporâneos-Oficinas de Artes Visuais. Foram incluídos nestes períodos os projetos de ocupação, via edital, das galerias das representações regionais Funarte MG, em Belo Horizonte e Funarte Norte/Nordeste, no Recife (PE).

Dentre as inúmeras exposições nacionais e internacionais, por meio de convênios, repasses e ações diretas curatoriais, o Centro de Artes Visuais realizou a exposição O Museu é o Mundo, de Hélio Oiticica (No Brasil e no exterior); Carlito Carvalhosa (Bienal de Havana); as bienais de Arquitetura e Artes Plásticas de Veneza; Ano Brasil França; Ano Brasil Portugal; Feira Internacional de Literatura de Frankfurt; as mostras Bola na Rede e outras para a Copa das Confederações e Olimpíadas; exposição Ponto Transição, dentre outras.

A partir de 2004, estes programas resultaram em centenas de publicações de catálogos e livros, DVDs, sites (editados) e documentações fotográficas e vídeo não editados ainda, formando um acervo referencial e histórico essencial para a história da arte contemporânea. Estas informações formam a memória das artes visuais brasileiras enviadas para catalogação e disponibilização pública junto ao Centro de Programas Integrados da Funarte, o Cepin.

Por dentro da Funarte: Quais profissionais integram a equipe do Ceav?

O Centro de Artes Visuais dispõe de uma equipe reduzida de profissionais. Além do diretor e da coordenadora executiva Andrea Paes, conta com curadores, coordenadores de projetos, administradores e especialistas em concepção e montagem de exposições e ações artísticas, técnicos em acompanhamento de projetos e demais assessorias funcionais.


Parte da equipe Ceav - Foto: Sebastião Castellano


Sobre o diretor do Centro de Artes Visuais (Ceav)

Artista visual, poeta e mediador cultural, Xico Chaves nasceu em Minas Gerais e mora no Rio de Janeiro. É formado em Artes e Ciência da Comunicação pela Universidade de Brasília e Centro Universitário de Brasília e Notório Saber em Artes Visuais pela Universidade de Brasília (UnB). Como compositor, tem letras de música gravadas por diversos parceiros e intérpretes, tais como: Geraldo Azevedo, Jards Macalé, Boca Livre, Nara Leão, dentre outros. Realiza trabalhos de criação artística em TV, vídeo, fotografia e poesia visual. Tem se dedicado às linguagens multimídia em arte contemporânea, pesquisa e utilização de pigmentos minerais em artes visuais.

Por dentro da Funarte: Você é um artista que transita por várias áreas do conhecimento: artes visuais, música, linguagem multimídia e tantas outras. Como lida com esta multiplicidade na concepção de uma obra ou na direção de algum projeto?

Existe uma simultaneidade em meu processo criativo. Nunca tive um olhar especial para uma única linguagem. No entanto, há duas vertentes que considero básicas: as artes visuais e a poesia. As duas desdobram-se numa série de outras, como a música, o carnaval, a fotografia, a pesquisa científica e estética, as artes cênicas (onde também atuei), o rádio, a TV e as ferramentas digitais, como sistemas e veículos de expressão e  comunicação e ainda na formulação de projetos institucionais. Todas estas práticas acontecem simultaneamente, ao ponto de poder estar realizando duas, três, quatro coisas ao mesmo tempo.

Acredito que a criação artística seja uma atividade em tempo integral que incorpora tudo ao mesmo tempo junto à reflexão e ação em um universo sem fronteiras, em expansão e contração, onde as referências se transmutam permanentemente sem provocar qualquer desconforto. À medida que vou incorporando o imaginário e o real, me sinto seguro ao transitar por diversos territórios, nos que existem e nos que não existem, porque a arte nos permite criar o inexistente (pode existir mesmo antes de sua própria gênese). Não há, portanto, experimentação; pesquisa talvez, pois ao correr o risco de realizar a obra deve-se estar seguro do que criou, mesmo sabendo que não há obra acabada. O artista tem o poder de modificar sua obra quando quiser. Este processo faz parte de sua natureza, aonde a liberdade de expressão conduz a forma de expressão. Falar sobre isto pressupõe ainda reformular estes conceitos quando se quiser. Esta liberdade constitui a essência do processo criativo.

Com o objetivo de intensificar sua produção de artes e poesia visual, Xico Chaves lançou o livro Da Paulicéia à Centopéia Desvairada – As vanguardas e a MPB (1999) em parceria com Sylvia Cyntrão e, ainda, o Manifesto a Favor (1999) e teve a obra incluída na exposição internacional itinerante The Millenium Art Collection. Os artistas Cildo Meireles, Amélia Toledo, Lygia Pape, Waltércio Caldas, Guto Lacaz, Nelson Felix, Bené Fontelles, Luis Hermano, Tomie Otake, Marcia X, Ronald Duarte, Manfredo de Souzaneto, Wagner Barja, Hélio Oiticica, Wladmir Dias Pino, Rubem Valentin, Paulo Brusky, Anabella Geiger, Beatriz Milhazes, entre outros, foram parceiros de Xico em exposições temáticas e coletivas.

Imagem

Por dentro da Funarte: Qual a influência da literatura em sua obra? Está em seus planos o lançamento de algum livro? Qual tema abrangeria?

Imagem e poema são parte do mesmo corpo e assim a relação é uníssona se vista como um sistema diversificado de construções e leituras simultâneas. No poema escrito crio imagens e na imagem crio escritas. Em uma sequência de imagens conforma-se um alfabeto que tende ao infinito, o mesmo ocorre com a palavra escrita, seja ela em forma de poemas parnasianos (como os sonatos/sonetos imperfeitos), construtivistas ou modernistas, signográficos, gráficos, poema-processo ou poema visual, poema-objeto, cordel, radiopoema, ou uma palavra só, ou fotopoema, videopoema, pintura com minerais sobre qualquer suporte, poemafóssil, improvisos, poemainvisível, performances, intervenções, instalações, transpoemas, poema sonoro ou sistema de signos associados, uns riscados no chão, outros que desaparecem na água, no ar ou no fogo.

Formam uma galáxia em movimento, sem centro, às vezes narrativa, umas óbvias e outras incompreensíveis antipoemas. Uma coisa é certa: são registros de memórias que correspondem ao que vivencio ou imagino no percurso. Vou transcrever aqui um trecho de texto que venho costurando e desfibrando desde 2004, que fala sobre isto e que também não se completa por não haver um ponto final.

“Toda palavra inclui a imagem. Mas a imagem não é tudo. Nem em tudo há palavra. O que será do mundo humano sem imagem? Toda palavra tem um som? O que será o som ao surdo? A palavra é tato ou som ao cego e ao mudo. Do olfato da palavra não duvido. A palavra tem ouvido. A imagem na palavra tem multíplice vertigem. Como a voz ressoa retida e solta no signo. A retina lê outros sentidos que a palavra-imagem anima. A poética não está só na palavra. O poema processo dela é livre. Mas o concreto nela se ramifica. O poema-imagem está na vida que o olhar decifra. O olhar que a sensibilidade ativa. No barulho e no silêncio o poema vinga como a erva medra na pedra e o poro respira na epiderme. Não tem fim o desenlace deste ciclo. Origem e gênese simultâneas.

Entre a palavra e a imagem não há uma linha limítrofe que a semiótica decodifique. Uma imagem não fala por mil palavras e o inverso também é verossímil. Nada disso se define com palavras ou imagens. O poema imágico não tem limites. O poema-objeto é mais que intersigno. É também o que se associa, o que para o poeta é um vício (vasculhar o infinito de uma galáxia de detritos para desconstruir sentidos ao prosseguir em seu ofício).

…nas linguagens limítrofes coexistem quase-cinema, quase-foto, quase-pintura, quase-teatro. Não existe quase-poema. O poema afina e desafina a melodia. Se alia à poesia onde a imagem se anistia. Em sua órbita imponderável não se alinha a um destino que se amplia. Surge de um ponto da paisagem vazia e se aninha na própria forma que lhe deu origem. Nele, em toda sua absoluta liberdade, fica o não dito pelo dito, onde o ponto final não significa limite, nem existe.”

A literatura tem o mesmo papel de destaque que outras formas de expressão. Tenho diversas publicações em andamento, no entanto ainda não encontrei o veículo para isto. Talvez via ferramentas digitais, onde posso reformular o que quiser, mesmo depois de  publicados. O pensamento e a criação não são estáticos e definitivos. O livro, editado convencionalmente, sempre permite uma reedição. O livro virtual pode ser reescrito permanentemente. Mas ainda estamos utilizando programas de difícil operacionalidade e o tempo da criação é maior e mais complexo que o tempo da produção.

Por dentro da Funarte: Fale um pouco sobre suas parcerias, projetos e obras mais relevantes como artista visual e multimídia. Cite uma exposição ou projeto que considere um diferencial em sua carreira.

Estar vivendo permanentemente em estado de criação e organização deste processo é um grande prazer para mim e para as parcerias que vão se agregando. A possibilidade de atuar em várias frentes simultâneas com múltiplos resultados tem me permitido sustentar, ainda, uma abordagem crítica. É difícil para mim destacar uma obra ou um trabalho coletivo mais relevante. Mas algumas se tornaram mais conhecidas, como a intervenção e  performance “Olhos na Justiça”, os poema-objetos “meteoro cúbico poético” e “forças ocultas”. Na pintura com minerais e pigmentos as séries “Luzz”, “Nova Matéria”, “Limites” e “Marés”. Na fotografia, “Fotopoemas” e nas publicações poéticas, “Pipa”, “Purpurina”, “Trincheira de Espelhos” e “poETa Clandestino”. Nas letras de música mais conhecidas, “Quem tem a Viola” (com Zé Renato e Claudio Nucci), “Chegou no Vento” (com Vinícius Cantuária), “Pano pra Manga” (com Jards Macalé), “Marimbondo”(com Marlui Miranda) e “Fica Melhor Assim” (com Zé Renato). Quanto aos projetos futuros tenho prontos diversos trabalhos finalizados e outros em andamento.

Leia também a entrevista com o diretor do Centro da Música, Marcos Souza