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Por Dentro da Funarte

Entrevista com a coordenadora da Funarte SP, Maria Ester Lopes Moreira

Publicado em 9 de outubro de 2017 Imprimir Aumentar fonte
Maria Ester Lopes Moreira – coordenadora da Funarte SP
Maria Ester Lopes Moreira – coordenadora da Funarte SP

Representante Regional da Funarte em São Paulo, Maria Ester Lopes Moreira assumiu o cargo em fevereiro deste ano, a convite do presidente da Fundação Nacional de Artes, Stepan Nercessian. Mestre em História Social da Cultura, pela PUC-Rio, ela trabalhava como gestora e consultora do Grupo Nós do Morro (criado em 1986 com o objetivo de proporcionar acesso à arte e à cultura para crianças, jovens e adultos do Morro do Vidigal, na Zona Sul do Rio) quando, ainda em 2013, foi convidada para vir para a instituição, inicialmente como diretora do Cepin – Centro de Programas Integrados.

“Minha primeira aproximação com a Funarte se deu em agosto de 2013, quando Guti Fraga foi nomeado presidente da Fundação. Eu o conheci em 1997, mais ou menos, no SATED/RJ (Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado do Rio de Janeiro) e, em 2001, fui trabalhar com ele no Grupo Nós do Morro. Fiquei no Grupo até 2008, quando mudei para São Paulo. Ao aceitar o convite para presidir a Fundação Nacional de Artes, em agosto de 2013, Guti me chamou para dividirmos mais esse momento importante da vida. No início de 2014, fui nomeada diretora do Cepin, onde fiquei até o início de 2015. Em fevereiro de 2017, a convite do atual presidente da Funarte, Stepan Nercessian, fui nomeada Representante Regional da Funarte São Paulo, cargo que ocupo até os dias de hoje. Portanto, oito meses”, detalha.

Nesse período, Ester Moreira realizou importantes ações. Um dos pontos altos da sua gestão foi a celebração dos 40 anos da Representação, em julho deste ano. “Durante a pesquisa sobre a história da Funarte SP, descobrimos a importância desse espaço para a arte e a cultura da cidade paulista, especialmente, durante as décadas de 80 e 90. A Sala Guiomar Novaes é, por exemplo, um marco na história da música alternativa paulista, tendo lançado artistas como Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção e o Isca de Polícia, os grupos Rumo, Língua de Trapo e muitos mais. A pequena sala de espetáculos, naqueles anos, abriu-se para a multiplicidade das expressões culturais, recebendo de concertos de música erudita a ciclos de performance, de peças teatrais a exposições fotográficas. Celebrar os 40 anos da Funarte SP foi emocionante, especialmente porque propiciou o retorno e reencontro de inúmeros artistas e frequentadores da Funarte daqueles anos iniciais, ainda mais contando com um pocket show do Arrigo Barnabé”, ressalta.

Evento em comemoração aos 40 anos da Funarte SP. Foto: Bruno H. Castro.

Ester Moreira destaca também a homenagem feita a Lulu Librandi, primeira coordenadora da Funarte SP. “Algumas ações me trouxeram uma alegria especial. Uma delas foi poder fazer uma homenagem a essa gestora brilhante, nomeando os Galpões do Complexo Cultural como Galpões Lulu Librandi. Contando com uma pequena, mas comprometida equipe, Lulu Librandi, a partir de uma ação quase isolada, adiantou em quase uma década o olhar que se voltaria para a diversidade (agora de forma mais sistemática), na tentativa de encontrar uma riqueza singular no fazer de cada artista ou de cada grupo. Um espaço federal, que dividia suas instalações com o MEC SP, ainda sob regime militar, pelo menos até 1985, e que apresentava shows, espetáculos, performances e exposições com temas e artistas que muito pouco tempo antes eram censurados e mesmo presos pelo Estado. Essa geração de artistas, que encontrou apoio e abertura na Funarte SP, fazendo dela a casa da sua renovação estética, marca a arte e a cultura paulistas até os dias de hoje”, conta a coordenadora da Representação paulista.

“Ter conseguido parcerias importantes para a revitalização e reocupação do salão superior do Teatro de Arena foi também uma realização da equipe que muito me gratificou. Além de conseguirmos fazer da Sala Umberto Magnani um espaço de conversa entre artes visuais e artes cênicas, com o Projeto Antes da Cena, o processo de revitalização daquele espaço foi todo feito com a garra e disposição da equipe da Funarte e dos curadores e artistas proponentes do projeto. Parte do meu ideal do que seja um trabalho de equipe compromissada se concretizou ali e se mantém no mesmo espírito em outras ações”, elogia.

Com intensa atividade nas áreas de artes cênicas, artes visuais e música, o Complexo Cultural da Funarte SP conta com os seguintes espaços:

Galpões Lulu Librandi (Alameda Nothmann, 1058 – Campos Elíseos): Galeria Flávio de Carvalho, Galeria Mario Schenberg, Sala Arquimedes Ribeiro, Sala Carlos Miranda, Sala Guiomar Novaes, Sala Renée Gumiel, Centro de Convivência Waly Salomão e Pátio do Complexo Cultural Funarte SP.
Teatro de Arena Eugênio Kusnet (Rua Teodoro Baima, 94 – Vila Buarque –Consolação): Sala Augusto Boal e Sala Umberto Magnani.

Teatro Brasileiro de Comédia (em reforma/ Rua Major Diogo, 315 – Bela Vista)

A seguir, a coordenadora da Funarte SP fala sobre as atribuições da Representação, os desafios inerentes ao cargo, suas expectativas e planos para o próximo ano.

Por dentro da Funarte – Quais as principais atribuições da Funarte SP?

Ester
Moreira – Promover a ocupação artística do Complexo Cultural Funarte SP e do Teatro de Arena Eugênio Kusnet, de acordo com as diretrizes da presidência e direção executiva da Fundação, de forma democrática, transparente, oferecendo ao público espetáculos de teatro, dança, música, exposições de artes visuais e intervenções artísticas de qualidade, a preço e condições adequadas de acessibilidade e garantir os processos administrativos adequados para a manutenção e aperfeiçoamento dos nossos espaços culturais, assim como sua gestão com qualidade e transparência.

Por dentro da Funarte – Quais os maiores desafios?

Ester
Moreira – Desvelando a história da Funarte SP, a missão que coloquei para minha gestão, para além das atribuições específicas da Representação, e para a qual conto com a parceria total da equipe da Funarte SP e apoio da Funarte Rio tem, principalmente, três vertentes:
1) Ampliar e criar condições adequadas para o acolhimento de propostas de ocupação de nossos espaços, em todas as linguagens artísticas com as quais atuamos. Abrir todos os espaços do Teatro de Arena e do Complexo para diversificadas formas de ocupação artística, inclusive seu pátio e os Galpões do MinC, que ficam no mesmo terreno do Complexo, diminuindo, até zerar, os períodos em que os espaços venham a ficar sem atividades;
2) Desenvolver estratégias para ampliar o público e o número de usuários de nossas salas e galerias, oferecendo um espaço e programação cada vez mais qualificados e acolhedores.
3) Trabalhar com a equipe da Funarte SP, incluindo servidores e colaboradores, de forma que cada um e todos sejam parte consciente das atividades, ações, planejamento, propostas, estratégias e soluções necessárias para a gestão e consequente cumprimento da missão da Representação. Estabelecer com eles um compromisso de trabalho de equipe e de uma equipe da Funarte.

Por dentro da Funarte – Em um ano marcado pelas dificuldades no cenário político e econômico, como conciliar gestão e criação?

Ester Moreira – É sempre mais difícil e desafiador realizar ações em momentos de crise e de dificuldade orçamentária. Principalmente quando falamos da gestão de um espaço público de referência em uma cidade como São Paulo. Porém, justamente porque é desafiador, acredito que nos estimule a buscar novas estratégias de gestão, outras formas de parcerias e novas ideias, fazendo de artistas, produtores, criadores e trabalhadores das artes e da cultura nossos parceiros na construção de novas possibilidades. Claro que há algumas coisas, principalmente no que se refere à manutenção e garantia de serviços mínimos, que são essenciais e que precisamos garantir, mesmo com baixo orçamento, em respeito a todos que frequentam nossos espaços culturais.

Por dentro da Funarte – Em 2017, a Funarte SP está completando 40 anos. O que você ressaltaria dessa pesquisa sobre a história da Representação?

Ester
Moreira – A Funarte foi criada em 1975. A Funarte São Paulo começou sua atuação em 1977. Quando começamos a pesquisa, nos demos conta de que a Representação completava 40 anos neste ano de 2017. Nesse processo de descobertas, conhecemos muitas histórias da Funarte, algumas pessoas que foram fundamentais para a construção desse lugar tão especial, localizado quase no centro da cidade, ao lado do Minhocão, fazendo fronteira com o elegante bairro de Higienópolis, com a efervescência e singularidade da Barra Funda, muito próximo da cracolândia e que tem como marca de sua geografia humana e espacial a contradição e o choque da imensa diversidade que marca e dá vida à maior cidade do país. Nos relatos, documentos e materiais de imprensa de arquivo, fomos descobrindo que essas marcas estão presentes na Funarte SP desde o seu início. Algumas vezes, muito presentes na sua própria constituição, nas linhas de programação e de políticas implementadas, outras vezes, por circunstâncias as mais variadas, latentes em seus muros e em seu entorno.
Para reconhecer uma dessas contradições, se podemos assim chamar, basta nos lembrarmos de que a Funarte e, posteriormente, a Funarte SP, foram criadas em plena ditadura militar. E mais, Antonio Parreira, então diretor executivo da Funarte convidou Lulu Librandi para abrir o escritório da Representação, após ver seu brilhante trabalho no primeiro grande projeto da Fundação: o Projeto Pixinguinha. Lulu era recém-chegada da Itália, para onde fora após ser detida por dois meses no DOI-CODI de São Paulo. Produtora e ativista cultural paulista, após sua prisão viu-se impossibilitada de continuar suas atividades profissionais e partiu para a Itália, com sua pequena filha Marília, em um autoexílio. E foi essa mulher de fibra e de muita competência que deu início, em tempos ainda difíceis, à principal marca da Funarte SP: o apoio e a oportunidade para artistas jovens e mais conhecidos – mas que haviam perdido espaço nos anos do regime militar e com o avanço da indústria cultural internacional – assim como para clássicos e alternativos.

Por dentro da Funarte – Das ações realizadas, quais você destacaria? E o que ainda está programado até o fim de 2017?

Ester
Moreira – Não sei se sou a melhor pessoa para responder essa pergunta (risos)… Mas algumas ações me trouxeram uma alegria especial. Uma delas foi poder fazer essa homenagem, nomeando os Galpões do Complexo Cultural como Galpões Lulu Librandi.
Ainda gostaria de destacar duas outras ações que considero importantíssimo que tenham prosseguimento para que a Funarte SP continue ocupando papel de destaque dentre as inúmeras ofertas artísticas de São Paulo, especialmente porque é um lugar público fundamental para muitos jovens artistas que têm mais dificuldade de inserção nos espaços privados.
O primeiro é o processo de cessão de um galpão para artistas visuais utilizarem como ateliê. Esse primeiro movimento, além da qualidade própria de disponibilizar espaço de experimentação para um campo artístico que anteriormente só se aproximava da Funarte quando selecionado em editais para exposição de seus trabalhos, abriu a possibilidade de outra parceria. Hoje, estamos com as galerias ocupadas com a exposição “Burgos”, que ainda terá desdobramentos com as montagens da “Burgos 2” e “Burgos 3”, além da ocupação que será feita pela instalação de um teatro de arena em nosso pátio, idealizado e construído por um grupo de artistas e criadores, sendo todos esses trabalhos coordenados pelos curadores e artistas do projeto. Em contrapartida, cedemos nossos espaços, que são públicos e têm a missão de acolher e apoiar a arte e os artistas, e damos apoio técnico e de infraestrutura, como faz parte de nossas atribuições.
Outra ação que tem trazido uma nova energia para nosso Complexo Cultural é o Projeto Funarte Musical que, com a curadoria de Carlos Calado e Robert Suetholz, dá continuidade à celebração dos 40 anos da Funarte SP, já tendo recebido no palco da Guiomar Novaes o grupo Isca de Polícia, Bocato e seu Quinteto, Sujeito a Guincho; Ná Ozzetti e Luiz Tatit, todos eles artistas que tiveram suas carreiras marcadas pela Funarte SP.

Por dentro da Funarte – O MinC anunciou que até o fim do ano lança o edital para transferir o TBC – Teatro Brasileiro de Comédia à iniciativa privada. Qual a sua expectativa em relação a esse processo?

Ester
Moreira – Acho que minha expectativa é comum a todos os amantes das artes e, em especial, das artes cênicas e da história do teatro brasileiro. Que o TBC possa ser reaberto ao público, retomando sua história de espaço importante para as artes cênicas, de forma acessível para o conjunto mais amplo da sociedade e dos artistas.

Por dentro da Funarte – Quais os planos para 2018? Novidades?

Ester
Moreira – Garantir que possamos realizar algumas obras de reparo essenciais para nosso funcionamento e para a qualidade de nosso espaço. Movimentar com muita arte, artistas e frequentadores todos os espaços e horários em que nossos portões mantêm-se abertos. Criar com a equipe da Funarte SP e apresentar para a Funarte Rio um projeto que cada vez mais permita que o Complexo Cultural Funarte SP e o Teatro de Arena formem um Complexo com características de residência artística e espaços de apresentações múltiplas e integradas ao seu entorno.

Sobre Maria Ester Lopes Moreira

Mestre em História Social da Cultura, pela PUC-Rio, com atuação nas áreas de pesquisa, direção e gestão de instituições e projetos culturais, educacionais e sociais; consultoria para formação de equipes e profissionais nas áreas de educação e cultura; e relações instituicionais.

Atual coordenadora da Funarte SP, ingressou na Fundação Nacional de Artes em 2014, como diretora do Centro de Programas Integrados – Cepin. Foi também gestora e consultora para Desenvolvimento de Projetos e Planejamento Estratégico do Grupo Nós do Morro, de 2012 a 2013; e gerente administrativa e operacional do mesmo grupo teatral entre os anos de 2002 e 2008. Atuou ainda no SATED/RJ – Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado do Rio de Janeiro (1996 a 1999/ 2000 a 2002); na Casa dos Artistas e na Fundação de Artes do Estado do Rio de Janeiro (FUNARJ), de 1999 a 2000.

Entre os anos de 1995 e 1997, atuou em diferentes projetos: Plural Pesquisas Históricas – responsável pelo desenvolvimento de Projetos de Pesquisa Histórica; Fundação Getúlio Vargas – pesquisadora e verbetista para atualização do Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro do CPDOC da Fundação; Memória Brasil e Fundação Roberto Marinho – pesquisadora no Projeto de Restauração do Museu do Catetinho/Brasília; Centro Cultural Banco do Brasil – projeto e coordenação do Ciclo de Palestras – Cultura: Substantivo Plural; e organizadora, com Márcia de Paiva, do livro Cultura: Substantivo Plural, pela Ed. 34, em parceria com o CCBB/Rio.

Formação Acadêmica:
1992 – 1995: Mestrado em História Social da Cultura – PUC/RIO
1978 – 1982: Graduação – Faculdade de História PUC-RIO / UNITAU Taubaté/SP