A exposição de estreia de Sávio Stoco reflete sobre a paisagem amazônica, ao mesclar técnicas, referências das artes amazonenses e práticas dos grandes centros urbanos da região.
Uma pintura de paisagem natural amazônica de grandes dimensões pendurada na recepção de um hotel. Passando na frente dessa paisagem tradicional, feita pelo pintor amazonense Moacir Andrade, uma figura masculina de costas, mal focada com camisa social, fazendo um movimento giratório incompreensível com as mãos, próximo a uma impressora. A composição fotográfica insólita pretende sugerir uma narrativa inconclusa. É a alegoria visual que abre a exposição “Amazônia, Esfinge”, composta por mais seis conjuntos formados por imagens/objetos.
“Durante o trabalho de produção das obras e seleção para a montagem, achei que essa imagem não poderia faltar porque sugere o “enigma” deste espaço brasileiro tão desconhecido que me propus a investigar e reorganizar visualmente”, disse o artista, paulista radicado em Manaus desde a infância e que tem neste trabalho sua primeira exposição de artes visuais individual.
Em seguida, a mostra dá destaque a obra de maior dimensão da exposição, “Espelho”, composta por duas colunas em forma de “U”, com dois metros de altura cada. Em cada uma delas foram fixadas duas imagens fotográficas que buscam a experiência escultural, tridimensional. A visualidade propõe um jogo de dentro e fora, tanto na forma da coluna (lado externo e interno do “U”), como no conteúdo das duas imagens que foram fixadas e dobradas acompanhando a forma das colunas. Uma fotografia tem um muro que se dobra para incluir em seu interior uma única árvore; e a outra é como uma imagem espelhar: um muro se dobra para excluir uma árvore do seu interior. “Espelho” mescla a exuberância da figuração natural com a urbana, diálogo que perpassa todas as obras da mostra.
Formado por três obras, o conjunto “Performance” reutiliza a mesma pintura de Moacir Andrade que agora é transformada em objeto-fetiche que o artista tentou reproduzir à lápis em tamanho natural. Em seguida, observa-se outra paisagem amazônica em grafite, agora produzida por um artista popular e que teve uma parte apagada por Sávio Stoco. O último quadro mostra uma borracha escolar branca solitária em uma moldura toda branca.
O conjunto que pretende mais interação com o espaço expositivo está no trio de fotografias em que o tema urbano é bastante explorado e práticas observadas na capital amazonense são criticadas. Em “Árvore”, vemos uma fotografia emoldurada tradicionalmente, porém localizada rente ao chão como está disposto o pedaço de tronco de árvore robusto na imagem fotográfica que serve de aparador para uma pequena árvore de Natal. Em “Condicionado”, a imagem que de um tronco cortado ainda enraizado, todo acimentado ao redor, foi disposta muito próxima do aparelho de ar condicionado do interior da galeria, já que a fotografia também exibe em sua parte superior um aparelho de mesmo tipo, tão comum nos ambientes internos de Manaus. Já em “Estacionamento”, nos deparamos apenas com uma folha de papel A4, simples, contendo uma mensagem orientando ao observador procurar a obra no estacionamento de carros na frente da Funarte MG. A mensagem é acompanhada de uma reprodução precária da fotografia que deveríamos estar observando. A fotografia mostra outra árvore cortada em destaque, próxima à um carro estacionado e se remete à grandiosa frota de carros particulares nos grandes centros da Amazônia. “São detalhes marginais nas fotografias, mas que acabaram guiando as escolhas para compor essas maneiras específicas de exposição e consequentemente das leituras”, explica Sávio Stoco.
”Amazonas, Esfinge” contou com acompanhamento criativo do artista acreano, radicado em Manaus, Roberto Evangelista, um dos principais nomes regionais reconhecido nos circuitos de arte contemporânea brasileira, com mostras no exterior.
A exposição é dedicada ao antropólogo Etienne Samain, professor do Instituto de Artes da Unicamp e ao comunicólogo Tom Zé (Antônio José Vale da Costa), professor do departamento de Comunicação Social da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). “A sensibilização direcionada à reflexão por imagens que o primeiro promove em suas disciplinas na pós-graduação, nortearam boa parte dos processos criativos. Já o segundo foi definitivo nos primeiros contatos e envolvimento com a fotografia”, disse o artista.
Entrada Franca