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Ginaldo de Souza, novo diretor do Ceacen, fala sobre sua trajetória profissional e os desafios à frente da Funarte

Relacionado a: Circo, Dança, Teatro
Publicado em 12 de maio de 2017 Imprimir Aumentar fonte
Ginaldo de Souza. Foto: SSCastellano
Ginaldo de Souza. Foto: SSCastellano

Com o objetivo de aproximar o público, os servidores e os colaboradores dos diversos setores da instituição, a entidade lançou a série de entrevistas Por dentro da Funarte, com os diretores dos centros. Nesta edição, encerrando a série, o entrevistado é o diretor do Centro de Artes Cênicas (Ceacen), Ginaldo Viana de Souza.

Homem de teatro em toda a sua vida profissional, Ginaldo Viana de Souza chegou à Fundação Nacional de Artes – Funarte este ano trazendo na bagagem a experiência de mais de 50 anos como ator, produtor e diretor de espetáculos teatrais e musicais. Entre seus planos à frente da instituição está a retomada de importantes projetos, como o Mambembão e Carequinha de Estímulo ao Circo.

Com formação teatral e vasta atuação na área, este campista de Campos dos Goytacazes (Norte Fluminense) e carioca desde os 3 anos de idade (quando se mudou com sua família para o bairro do Catete, Zona Sul do Rio), conta um pouco da sua trajetória, planos e desafios à frente desta instituição.

Convidado pelo presidente da Funarte, Stepan Nercessian, de quem é amigo há muitos anos, Ginaldo já foi presidente da Funarj (Fundação de Artes do Estado do Rio de Janeiro), durante a gestão do governo Benedita da Silva, e diretor da mesma instituição no Governo Garotinho. “Stepan foi vice-presidente da Funarj no governo Garotinho e eu era diretor de Artes Cênicas. Stepan trabalhou muitos anos comigo em espetáculos de rua que eu dirigia. Ele foi São Sebastião durante 15 anos e São Jorge também era ele. Paixão de Cristo ele também fazia”, conta.

Apaixonado por espetáculos de rua, cuja experiência pretende trazer para a Funarte, o diretor do Ceacen teve sua iniciação teatral na primeira escola de teatro do Brasil e da América do Sul, a Escola Estadual Martins Pena, na Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro. Fundada em 1908, ela faz parte da rede da Fundação de Apoio a Escola Técnica (Faetec), da Secretaria de Ciência e Tecnologia, e é referência de ensino público na área de artes cênicas.

“De lá saíram grandes artistas, como Teresa Rachel. Em seguida, estudei na Fundação Brasileira de Teatro, também no Rio, fundada pela atriz Dulcina de Moraes, em nível colegial. Mais tarde, a FTB foi transferida para Brasília (DF) e transformada na Faculdade de Artes Dulcina de Moraes”, relembra.

A Fundação Brasileira de Teatro foi fundada em 1955 no Rio de Janeiro pela atriz Dulcina de Moraes, oferecendo cursos de interpretação, direção, cenografia, crítica de arte e extensão cultural. Contou com professores do porte de Ziembinski, Adolfo Celi, Henriette Morineau, Dulcina de Moraes, Maria Clara Machado, Joracy Camargo, Cecília Meireles, Junito de Souza Brandão e Sérgio Viotti. Em 1980, transferiu sua sede para Brasília, sendo transformada na Faculdade de Artes Dulcina de Moraes – Brasília. Oferece cursos de Artes Plásticas e Artes Cênicas.

Ginaldo se recorda com alegria de que ter sido convidado, depois de formado, para se apresentar na Faculdade Dulcina de Moraes com a peça A Resistência, de Maria Adelaide Amaral, nos anos 80. Além de ator, era um dos produtores do espetáculo ao lado de Cecil Thiré, Flávio Bruno e Cacá Teixeira.

Antes, ele havia ajudado a criar, ao lado do estudante de arquitetura Kleber Santos, o Grupo de Teatro Jovem, sediado na Casa do Mourisco, na Praia de Botafogo, Zona Sul do Rio. O grupo estreou em 1960 com peça A Mais-Valia Vai Acabar, Seu Edgar, de Oduvaldo Vianna Filho. Encenado no Teatro de Arena da Faculdade Nacional de Arquitetura, no Rio de Janeiro, o espetáculo propiciava um intercâmbio entre artistas e estudantes que daria origem ao Centro Popular de Cultura da UNE – CPC. O grupo existiu até o início dos anos 1970.

“Passaram por lá grandes atores da época, como Vanda Lacerda, Luiz Linhares, José Wilker, Renata Sorrah, Maria Gladys, Paulo Padilha”, conta o diretor do Ceacen. O Teatro Jovem ainda viria estrear espetáculos famosos, como A Moratória, de Jorge Andrade, Álbum de Família (censurada por 20 anos), de Nelson Rodrigues, e Rosa de Ouro, o musical do poeta e compositor Hermínio Bello de Carvalho que lançou Clementina de Jesus e trazia no elenco Elton Medeiros, Aracy Cortes, Nelson Sargento, Paulinho da Viola, Jair do Cavaquinho e Anescarzinho do Salgueiro.

Nos anos 1960, artistas eram muitas vezes considerados subversivos, e com o Grupo de Teatro Jovem não poderia ser diferente. “Qual era a proposta do Teatro Jovem? Todo mundo era comunista. Tínhamos uma forma brasileira de interpretar, de buscar uma qualidade brasileira de interpretação e dramaturgia. Montamos a peça Aconteceu em Irkutsk (1961), do russo Aleksei Arbuzov. Depois só montamos peças nacionais. Em 1964, fui preso no dia 1º de abril, por dois dias. Queriam fechar o teatro sob a acusação de subversão. Só foi preso quem estava no local. Entre os presos estava a vedete Elisabeth Gasper, que não tinha nada a ver com o Grupo e só estava fazendo uma peça lá. Havia uma parede com cartazes de Cuba, União Soviética, de filmes desses países”, conta sorrindo.

Depois do Grupo de Teatro Jovem, Ginaldo associou-se a Cecil Thiré e Nelson Xavier, com os quais dirigiu diversos espetáculos, como o Seis e Meia. Participou do primeiro Projeto Pixinguinha, tendo dirigido os shows de Alceu Valença e Jackson do Pandeiro e de Jards Macalé e Moreira da Silva. Também dirigiu shows de Cartola e de João Nogueira, este era seu amigo.

Apaixonou-se em seguida pelo teatro de rua. É dele a criação e direção por cerca de 25 anos da tradicional encenação da Paixão de Cristo, nos Arcos da Lapa, Centro do Rio. Com texto de Benjamin Santos, o espetáculo, promovido pela Associação Cultural da Arquidiocese do Rio de Janeiro desde 1979, costuma atrair milhares de espectadores todos os anos na Sexta-Feira da Paixão. Foi dele também a direção do espetáculo Festa-Testemunho para a chegada do Papa João Paulo II, em 1997, no Maracanã.

“Fiz vários espetáculos de rua, muitos ligados à Arquidiocese do Rio. O arcebispo da época, o Dom Eugênio de Araújo Sales, achava que teatro era uma forma de evangelização. Ele dava apoio e buscava verba para as montagens. No Dia de São Sebastião, eu montava espetáculo em frente à estátua do santo, no Dia de São Jorge, o espetáculo era em frente à Igreja de São Jorge, em Quintino (Zona Norte do Rio). Também dirigi os espetáculos cênicos do Projeto Aquarius, na Quinta da Boa Vista, entre outros promovidos em datas comemorativas, como Sete de Setembro, Proclamação da República, Dia Mundial da Juventude, Semana da Consciência Negra, nas escadarias da Câmara dos Vereadores. Viajo o Brasil todo com os espetáculos. Apresento peças em São Paulo, Curitiba, Campos, Rio das Ostras.”, afirma.

O Ceacen está dividido em três áreas-fins: Circo, Dança e Teatro, cujos respectivos coordenadores são: Marcos Teixeira, Fabiano Carneiro e Oscar José Gonçalves, que chega para ocupar o cargo vago na coordenação de Teatro. O diretor da Escola Nacional de Circo (ENC), ligada à Coordenação de Circo, é Carlos Vianna.

Planos para a Funarte: Mambembão será retomado
Ginaldo reconhece a importância de projetos que marcaram época na Funarte. Por isso, uma de suas principais linhas de atuação inclui relançar o Mambembão. “Será retomado de um modo diferente. Antigamente o projeto trazia espetáculos de outros estados para serem exibidos na região sudeste. Agora o Mambembão ganha um subtítulo ‘Brasil vê o Brasil’ e a ideia é fazer com os que artistas apresentem seus espetáculos em quatro das cinco regiões brasileiras, por um período de 12 meses”, esclarece.

Com orçamento total de R$ 7,5 milhões, o Mambembão – Brasil vê o Brasil prêvê R$ 7,35 milhões para serem destinados aos 61 contemplados nas áreas de circo (trupe), dança e teatro, da seguinte forma: 10 contemplados da Região Norte com R$ 150 mil cada; 16 contemplados da Região Nordeste com R$ 100 mil cada; 10 contemplados da região Centro-Oeste com R$ 100 mil cada; 15 contemplados da Região Sudeste com R$ 150 mil cada; e 10 contemplados da Região Sul com R$ 100 mil cada. Ao todo deverão ser apresentados 70 espetáculos, responsáveis por 1.050 apresentações divididas entre as cinco regiões brasileiras.

Projetos para os espaços cênicos da Funarte
Para o segundo semestre está previsto lançar o edital de ocupação dos espaços cênicos. No Rio estão programadas ocupações nos teatros Dulcina, Glauce Rocha e Cacilda Becker. Outro importante projeto, de acordo como diretor do Ceacen, será o Meio-dia e Meia.

“Levaremos espetáculos musicais, em parceria com o Centro da Música da Funarte, ao Teatro Glauce Rocha, e de dança clássica ao Cacilda Becker, sempre ao meio-dia, às quartas, quintas e sextas-feiras, com uma hora de duração, a preços populares. O público vai ter cenas de óperas, grandes balés. E terá o lado didático: cada espetáculo terá uma explicação prévia, da história, das cenas. Este projeto conta com a colaboração de Ana Botafogo, bailarina do Theatro Municipal”, explica. Ele anuncia, ainda, o relançamento do Concurso Nacional de Dramaturga (teatro adulto e infantil) para o segundo semestre.

Ginaldo ainda questiona a ideia de que a formação de público para o teatro adulto seja oferecer ingressos a preços baixos. “Na minha opinião, formação de público começa com teatro pra criança. Essa cultura de levar a criança ao teatro é muito importante. Sempre fiz isso com meus filhos. Hoje temos teatro infantil de altíssimo nível”, elogia.

Novos projetos para o Circo
Na área de circo, será lançado edital de circulação de espetáculos circenses nas cinco regiões. Serão contempladas duas categorias: circo convencional e “pano de roda”. Estes são aqueles espetáculos circenses pequenos, a céu aberto, apresentados nas ruas. A previsão é lançar o edital ainda neste semestre para execução no segundo. E o Prêmio Funarte Carequinha de Estímulo ao Circo, cuja última edição foi em 2015, também será reeditado.

Ginaldo conta que já está em estudo uma ideia nova para levar o ensino das artes circenses a todo o país. Batizado de Posto Avançado da Escola Nacional de Circo, o projeto consiste em cursos para iniciantes (sem os instrumentos mais complexos) ministrados em parceria com as prefeituras. “Faremos primeiro no interior do Estado do Rio e, se der certo, levaremos a outros estados. O professor será encaminhado pela ENC, mas custeado pela prefeitura, e o espaço também também será cedido e mantido pela prefeitura”, esclarece.

Principais desafios
Na opinião de Ginaldo, “o grande desafio é ter ideias ricas em criatividade, mas muito simples nos gastos, sendo economicamente simples, pois com a atual situação econômica do país é preciso continuar fomentando a arte com poucos recursos”.

Outro desafio, em sua opinião, é descentralizar os recursos para fomentar as artes em todas as regiões do país. “Tem sempre crítica. Muitos acham que damos preferência para o Sudeste. Por isso, em nossos editais vamos privilegiar a Região Norte, de onde temos recebido muitas reclamações. Também vamos oferecer mais oficinas técnicas, como cenografia, iluminação, etc., que é o que se pede mais nessa região”, afirma.

Política de estado
“Pretendemos deixar uma política de estado, não de governo, para que ela sobreviva e se desenvolva. Brasil não pode continuar com essa loucura de mudar o partido que está no poder e toda a política muda. Minha pretensão é deixar como legado uma política de estado”, conclui.

Leia também a entrevista com o diretor do Centro de Artes Visuais, Xico Chaves