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Funarte MG expõe obras de Mestre Orlando e Paulo Nazareth

Com estreia marcada para o dia 15 de março, em Belo Horizonte, ‘Malungo == Irmãos de Barco’ reúne esculturas, objetos diversos, fotografias, vídeo e performance

Publicado em 7 de março de 2017 Imprimir Aumentar fonte
‘Malungo == Irmãos de Barco’ – Divulgação
‘Malungo == Irmãos de Barco’ - Divulgação

Obras conhecidas e inéditas de dois artistas – Mestre Orlando e Paulo Nazareth – ocupam, de 15 de março a 28 de abril, o Galpão 5 da Funarte MG, em Belo Horizonte. São esculturas em madeira e pedra sabão, objetos diversos, fotografias, além de vídeo e performance. O projeto Malungo == Irmãos de Barco, contemplado com o Prêmio Funarte de Arte Contemporânea 2015, foi idealizado por Luciana de Oliveira e inspirado na relação de afeto e ensino-aprendizagem entre o mestre carranqueiro e seu discípulo andante. Hoje reconhecido internacionalmente, Paulo nunca se esqueceu do mestre, seu primeiro professor de arte popular (nos anos 1990), com quem aprendeu o entalhe em madeira.

Antes da abertura da exposição, Paulo Nazareth sai em caminhada da nascente à foz do rio São Francisco, lugar onde habitam as carrancas, para produzir materiais que vão chegar à galeria. Malungo conta também com um ateliê aberto de escultura, capitaneado pelo filho de Mestre Orlando, Allan dos Santos Ferreira. As atividades do ateliê se inspiram na trajetória do mestre, baiano radicado nas terras mineiras, que atendeu a crianças e jovens em projetos sociais e centros culturais distantes do centro da cidade, das instituições de arte, do mercado da cultura e do que seriam padrões estéticos canônicos. Morreu em 2003 deixando um legado de ativismo político, artístico e cultural.

Para a curadora da exposição, Luciana de Oliveira, Malungo tem o compromisso de manter viva a obra do mestre pela sua grande potência artística e em resposta às forças de apagamento e desqualificação dos saberes e práticas populares que vigoram nos circuitos hegemônicos do mercado da arte. A curadora explica que a carranca tem o poder de sintetizar duas conexões entre os trabalhos dos artistas neste diálogo ficcional: é a figura do espírito guardião que possibilita um bom ambiente de comunicação e, ao mesmo tempo, aciona os fortes contornos de lutas sociais e resistências políticas. “A obra e vida de Mestre Orlando e Paulo Nazareth são carrancas contra o Estado, contra o mercado, contra o pensamento unívoco, contra o preconceito instituído e os imaginários viciados, contra o imperativo da regra cega que desliza em águas perigosas”, ressalta Luciana.

Sobre o Mestre Orlando [1]
Orlando dos Santos Ferreira é baiano, natural de Salvador. Migrou em 1973, junto com Beto Bahia, para Belo Horizonte depois que seu cunhado, Jessé, já um mestre escultor, instalou-se na capital mineira buscando melhores condições de vida. Vivendo esses primeiros anos no bairro São João Batista, na “casa dos baianos”, assim conhecida na região pela alegria e pela alimentação peculiar: ovo com salame. Logo após chegar, Orlando já começou a trabalhar voluntariamente com os ensinos de entalhe em madeira para a juventude humilde na vizinhança de sua residência nos bairros São João Batista, Pompeia e Nova Vista (entre 1975 e 1978).

Nos dons do entalhe ele foi autodidata e, mais tarde, se aperfeiçoou na convivência e trabalho compartilhado com os cunhados. Orlando trabalhava como pintor na Bahia. Foi nesse ofício, contratado para trabalhar no restauro de uma antiga senzala, que ele descobriu algumas peças de madeira feitas por sujeitos na condição de escravos e escravas que estavam ali guardadas ou esquecidas. Vendo essas peças que lhe saltaram aos olhos pela beleza e grande riqueza de detalhes ele pensou: “se eles com as mãos acorrentadas puderam fazer, por que eu livre não posso?”. Além disso, pode-se dizer que certa sensibilidade artística lhe foi transmitida pelo pai que, segundo ele contava, foi um grande pintor, embora só pintasse às escondidas. Orlando descobriu as pinturas do pai um dia, por acaso, debaixo da cama e admirou-se com a beleza das telas e do próprio ato de pintar.

Os dons do ensino e da transmissão sempre foram a sua grande marca. Uma vontade de doação de si que “fez acontecer” seus projetos nas periferias que ele transformava em centros, em escolas de trocas de experiência e de formação. Ao que tudo indica, isso é uma característica de sua personalidade, talvez adensada por experiências com a fundação do bloco de carnaval Ilê Aiyê em 1974, do qual ele participou entre idas e vindas de Salvador. As exigências subjacentes à fundação do bloco definiam como suas prioridades: funcionar como uma entidade de militância negra, africanização do carnaval de Salvador, ação social, cultural e educacional com a afirmação pública de tradições Yorubá, a valorização e o respeito a essa matriz fundadora da cultura baiana e brasileira. Essas diretrizes, Orlando traz consigo quando vem para Belo Horizonte. Assim, ele se torna um promotor da produção e ensino das artes plásticas nos bairros Jardim Guanabara, Floramar, São Bernardo e Jardim Felicidade.

Junto com o trabalho de arte e educação, Orlando trabalhava como pedreiro. Era morador da ocupação urbana que hoje constitui o Bairro Floramar e participava do movimento negro. Durante muitos anos, foi expositor na Feira Hippie que funcionava na Praça da Liberdade, ocasião em que o valor de seu trabalho foi reconhecido por alguns artistas mineiros, o que propiciou a mudança da categoria de sua produção de artesanato para a prestigiosa denominação de Arte. Assim, em 1977, ele participa e vence o prêmio do salão do Museu de Arte da Pampulha, e algumas de suas obras passam a compor o acervo da instituição. A visibilidade conquistada nesse momento propiciou sua participação em outras exposições e outros prêmios, com destaque para o Salão Nacional de Arte de Porto Alegre, a 1ª Bienal Latino-Americana em São Paulo, a exposição Santeiro Imaginário, no Paço das Artes, e diversos eventos artísticos ligados à cultura afro-brasileira. Faleceu em 2003.

[1] Biografia elaborada por Luciana de Oliveira no processo de pesquisa da exposição Malongo, com base em entrevistas realizadas com Allan Lopes (2014 e 2016) e documentos diversos pertencentes à família de Mestre Orlando.

Sobre Paulo Nazareth [2]
Nascido Paulo Sérgio da Silva em 1977, adotou o nome artístico Paulo Nazareth em homenagem à avó, Nazaré Cassiano de Jesus, indígena borun, violenta e injustificadamente levada ao manicômio de Barbacena. Carregar o nome da avó é um de seus mais notáveis trabalhos, ponto de partida de sua pesquisa autobiográfica-histórica-mítica-poética. Aos 12 anos, parte de sua família migrou de Governador Valadares para Belo Horizonte, com uma rápida passagem pela cidade de Curvelo onde Paulo trabalhou como cuidador de porcos em uma fazenda. Durante toda a adolescência e primeira juventude, trabalhou ainda como faxineiro, jardineiro, padeiro, capineiro, vendedor ambulante, cozinheiro, varredor de rua, agente de saúde e outros pequenos ofícios. Os dons da arte apareciam amalgamados aos fazeres desses ofícios que o ensinaram a olhar para a beleza do que se encontra na rua (embalagens, objetos, propagandas, recortes de rolo de filme), a criar e intervir em bonecos e brinquedos, inventar músicas, observar os animais e as pessoas, escutar histórias, sentir os espíritos e o tempo. A invenção desse olhar, que reinventa o belo, constitui também parte da criação dos caminhos a percorrer — o que convencionalmente chamamos de processo criativo.

Fazer a vida acontecer junto com a família, existir e resistir como parte da experiência cotidiana, a descoberta de sua negritude no ensino médio, o cabelo afro, as histórias que o faziam sentir o seu ser borunafro-krenak, afro-borun, afro-americano — oportunizavam a realização de muitas criações e ações performáticas que a formação acadêmica em Belas Artes ajudou a entender que podiam ser nomeadas como arte contemporânea. Antes disso, porém, veio todo o período de formação com Mestre Orlando entre os anos de 1997 e 2000 e o reconhecimento de algo importante: ser um mestre popular é muito mais difícil do que ser um mestre acadêmico. São muito mais anos de formação, muito mais exigências. Com Orlando, Paulo aprendeu entalhe em madeira [3], mas aprendeu, sobretudo,o princípio daquilo que se tornaria marca de sua forma de criação: praticar uma arte de conduta, uma arte que não se separa da vida e na qual o fazer artístico é também trabalho, reza, macumba, ebó, canto, negócio, política, como bem ensina a maestria popular. Também aprendeu que um trabalho é sempre de quem o fez, independente dos caminhos que percorre como objeto de consumo e que, mesmo nessas relações, segue em progresso, em feitura. É nesse sentido, talvez em outros, que Paulo faz carrancas.

[2]Biografia elaborada por Luciana de Oliveira no processo de pesquisa da exposição Malongo, com base na observação de entrevistas concedidas por Paulo Nazareth e conversações diversas mantidas entre a curadora e o artista, desde 2012.

[3] Algumas obras desse período de aprendizado fazem parte do acervo em exposição: “Torso de Mulher” (1999) de propriedade de Antônio da Silva, irmão de Paulo, Perfil I (1998), do acervo do artista, Flor (s/ data) e Boneco com Barulho (2000).

Malungo==Irmãos de Barco. Carrancas de Mestre Orlando e Paulo Nazareth
Curadoria: Luciana de Oliveira
Visitação: 15 de março a 28 de abril de 2017 – quarta a domingo, das14h às 22h
Local: Galpão 5 – Funarte MG
Rua Januária, 68 – Centro, Belo Horizonte (MG)

Este projeto foi contemplado com o Prêmio Funarte de Arte Contemporânea 2015