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Exposição ‘Mãe Preta’ abre temporada no Maranhão

Mostra contemplada pela Funarte reúne vídeos, fotografias e instalações

Publicado em 11 de dezembro de 2018 Imprimir Aumentar fonte
Mostra Mae Preta_2018_Sao Luiz-MA_Itinerancia_Premio Funarte Conexao Circulacao Artes Visuais_2016
Esq.:acervo da mostra. Dir.:acima, Marc Ferrez;abaixo, Debret.

Trabalho de Isabel Löfgren e Patricia Gouvêa recebeu o Prêmio Funarte Conexão Circulação Artes Visuais

Com abertura no dia 12 de dezembro, terça-feira, a mostra Mãe Preta, da dupla de artistas visuais Isabel Löfgren & Patricia Gouvêa, instala-se no Chão SLZ, espaço no Centro de São Luís do Maranhão. Com entrada franca, a mostra fica aberta à visitação a partir do dia 13. O projeto foi contemplado com o Prêmio Funarte Conexão Circulação Artes Visuais em 2016.

No dia 13, quarta, às 17h, haverá bate-papo e visita guiada abertos ao público, com as autoras e com lideranças femininas maranhenses.

O conjunto, que fica exposto até 9 de fevereiro de 2019, reúne peças de fotografia, vídeo e literatura, além de instalações e performances. A pesquisa das artistas que originou o trabalho teve seu ponto de partida nas conhecidas imagens das amas-de-leite negras, registradas desde meados do século XIX até o início do século XX. O estudo busca identificar ressonâncias e traçar elos entre as condições da maternidade e da escravidão, por meio de releituras de imagens e arquivos do período escravagista. A pesquisa, também investiga o “desaparecimento da história escravocrata” na cultura urbana brasileira e as “vozes de mulheres e mães negras” na contemporaneidade. O intuito do projeto, desenvolvido em progressão constante, é discutir a memória da escravidão e o legado da mulher negra na formação da sociedade brasileira, a partir da história visual do país.

O projeto Mãe Preta foi também contemplado com o Edital Fomenta, da Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro (2016), e com o Edital de Exposições da Fundação Clóvis Salgado (2017). Em processo de itinerância – como previsto no edital –, a exposição esteve no Rio de Janeiro (RJ), em 2016, na Galeria Pretos Novos de Arte Contemporânea (com dois mil visitantes) e, também com sucesso de público, no ano seguinte, em Belo Horizonte (MG), no Palácio das Artes; e em 2018, na Funarte SP, na Galeria Mario Schenberg.

Da escavação arqueológica à intervenção artística

Dividida em oito séries, Mãe Preta apresenta obras que, reunidas, propõem uma reinvenção poética do conjunto de imagens históricas relacionadas às “mães pretas”, com uma linguagem contemporânea. Segundo Isabel Löfgren, o maior objetivo do projeto é contrapor as representações romantizadas dessas mulheres e da maternidade, em arquivos históricos do período escravocrata, ao ”protagonismo real e crescente exercido pelas mães negras de hoje”. A artista relata que o estudo teve início no contexto histórico das escavações arqueológicas realizadas na zona portuária do Rio de Janeiro nos últimos anos. “À medida que foram se revelando diversos achados,” afirma, “começamos a buscar elementos que se articulassem com o papel da mulher negra – focando na sua função dupla como mãe de seus próprios filhos e como amas-de-leite de crianças brancas – na formação social da cidade”.

A basea do trabalho foram releituras de fotografias do Instituto Moreira Salles (Rio de Janeiro), além de gravuras de Jean-Baptiste Debret, Johan Moritz Rugendas e de outros artistas. Isabel e Patricia criaram intervenções nessas estampas, por meio de lupas e lentes. Essa interferência artística destaca a complexidade das relações das amas-de-leite com as crianças brancas; e das mulheres escravizadas com seus próprios filhos – em contextos domésticos, na cidade e no campo. “De tão conhecidas, estas imagens são vistas de forma superficial e contribuem para um olhar normalizado sobre a vida dessas mulheres que desempenharam um papel fundamental na formação da sociedade brasileira”, diz Patricia Gouvêa. “Os trabalhos propõem uma nova forma de olhar essas imagens, de modo que a figura materna apareça no primeiro plano e não apenas como um detalhe da vida cotidiana e familiar nos tempos da escravidão”, completa.

Vídeo-instalação e minibiblioteca resgatam as “mães pretas”

Um dos pontos mais destacados da mostra é a vídeo-instalação Modos de Fala e Escuta – com 27 min de duração –, que reúne o depoimento de sete mães negras sobre maternidade, racismo, memória, ancestralidade, violência e lutas cotidianas. Outro destaque da mostra, nesse sentido, é a obra Mural das Heroínas, com 20 retratos de líderes negras, como Luísa Mahin, Tereza de Benguela e Nzinga de Angola, e das feministas Lélia Gonzalez e Beatriz do Nascimento, além de figuras políticas, como Laudelina de Campos e Marielle Franco, entre outras. Segundo as artistas, estas “simbolizam as conquistas sociais, a luta, a resistência, a voz e o lugar histórico da mulher negra no Brasil”.

A exposição conta, ainda, com a minibiblioteca Mãe Preta, que pode ser consultada pelo público. Ela reúne publicações de autoras negras contemporâneas, além de uma seção de literatura infanto-juvenil, com títulos sobre protagonismo negro.

Mergulho nos contextos locais

As artistas fizeram uma imersão nos contextos específicos das cidades onde expõem. No Maranhão, realizaram entrevistas com lideranças femininas dos Quilombos Santa Rosa dos Pretos e Santa Joana – o que resultou em obras inéditas. Em São Luiz, será mostrada a obra Modos de Encantar, com retratos, somados a um vídeo, que documenta as lideranças dos quilombos maranhenses Santa Rosa dos Pretos e Santa Joana (onde a dupla realizou pesquisa de campo, em julho de 2018). “Em ambas as comunidades, o protagonismo feminino é crucial na luta pela preservação da terra e dos rituais espirituais, bem como na atuação de parteiras que perpetuam o parto natural sob a benção e guia das ‘encantadas’”, em que os cuidados maternos são coletivizados – explicam as artistas. O estudo que gerou esse trabalho foi a segunda pesquisa de longa duração da dupla.

O catálogo: contribuições de nomes conhecidos

O projeto inclui um catálogo, que reúne contribuições de nomes nacionais e internacionais: a antropóloga e curadora-adjunta para histórias e narrativas no Masp, Lilia Moritz Schwarcz (USP); a antropóloga e pesquisadora Martina Ahlert (UFMA); o escritor Alex Castro; o historiador e diretor do Núcleo de Estudos e Pesquisa do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos, Júlio César Medeiros da Silva Pereira (UFF); a historiadora da arte, educadora criativa e curadora britânico-nigeriana Temi Odumosu (Universidade. de Malmö – Suécia); e a fotógrafa, escritora e professora do ICP-Bard (EUA), a norte-americana Qiana Mestrich.

Sobre as artistas

As cariocas Isabel Löfgren e Patricia Gouvêa atuam em dupla há mais de uma década. Realizaram a pesquisa e a exposição Banco de Tempo, na Galeria do Lago/Museu da República (Rio de Janeiro – 2012), que ganhou publicação, de mesmo nome, em 2015. Em sua pesquisa, as artistas buscam criar maneiras de relacionar lugares históricos, arquivos de imagens e debates atuais, por meio da arte contemporânea.

A abertura da exposição em São Luís contará ainda com uma visita guiada e bate-papo no dia 13 de dezembro, às 17h, com a presença de lideranças femininas maranhenses.

Isabel Löfgren e Patricia Gouvêa

Mãe Preta

Exposição fundamentada em pesquisa

Calendário

Abertura: 12 de dezembro, das 18h às 21h

13 de dezembro, às 17h: bate-papo aberto ao público e visita guiada com as artistas Isabel Löfgren e Patricia Gouvêa e as lideranças femininas maranhenses

Visitação: de 13 de dezembro de 2018 a 9 de fevereiro de 2019, de terça-feira a sábado das 12h às 19h

Local: Chão SLZ
Rua do Giz, 167, Praia Grande, São Luiz (MA)
Entrada gratuita

Projeto contemplado com o Prêmio Funarte Conexão Circulação Artes Visuais – Galerias Funarte de Artes Visuais São Paulo / Maranhão / Chão SLZ

Mais informações: Assessoria de imprensa
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