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Exposição ‘Mãe Preta’ abre temporada em São Paulo

Projeto contemplado pela Funarte reúne vídeos, fotografias e instalações

Publicado em 27 de setembro de 2018 Imprimir Aumentar fonte
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Exposição 'Mãe Preta'. Imagem: divulgação

Trabalho de Isabel Löfgren e Patricia Gouvêa recebeu o Prêmio Funarte Conexão Circulação Artes Visuais

As conhecidas imagens das amas-de-leite negras, registradas de meados do século XIX ao início do século XX, são o ponto de partida da pesquisa das artistas Isabel Löfgren e Patricia Gouvêa para a realização da exposição Mãe Preta, que recebeu o Prêmio Funarte Conexão Circulação Artes Visuais de 2016.  A mostra já foi exibida no Rio de Janeiro, em 2016, na Galeria Pretos Novos de Arte Contemporânea (do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos, na capital fluminense), tendo recebido cerca de 2 mil visitantes, e também em Belo Horizonte, em 2017, no Palácio das Artes. Após o sucesso de público, a exposição chega a São Paulo, na Galeria Mario Schenberg, da Funarte.. A abertura ocorre em 4 de outubro, a partir das 18h, e a mostra segue em cartaz até 25 de novembro, reunindo fotografias, vídeos, instalações, performance e literatura.

O projeto surgiu de uma pesquisa artística de Isabel e Patricia, iniciada em 2015. O trabalho, em constante progressão, busca traçar elos e ressonâncias entre as condições da maternidade e da escravidão, por meio de releituras de imagens e arquivos do período. A pesquisa também investiga o desaparecimento da história escravocrata na malha urbana das cidades brasileiras e as vozes de mulheres e mães negras na contemporaneidade. O intuito da mostra é discutir a memória da escravidão e o legado da mulher negra na formação da sociedade brasileira a partir da história visual do país.

Segundo Isabel Löfgren, “o objetivo da exposição é contrapor a representação romantizada das ‘mães pretas’ e da maternidade em arquivos históricos do período escravocrata ao protagonismo real e crescente exercido pelas mães negras de hoje.” A artista relata que o projeto teve início no contexto histórico das escavações arqueológicas realizadas na zona portuária do Rio de Janeiro nos últimos anos. “À medida que foram se revelando diversos achados,” afirma, “começamos a buscar elementos que se articulassem com o papel da mulher negra – focando na sua função dupla como mãe de seus próprios filhos e como amas-de-leite de crianças brancas – na formação social da cidade”.

Inédita em São Paulo, a exposição – que ainda seguirá para São Luís, no Maranhão, em dezembro – inclui o lançamento de um catálogo com participações de nomes nacionais e internacionais, como a antropóloga e curadora-adjunta para histórias e narrativas no Masp, Lilia Moritz Schwarcz (USP); a antropóloga e pesquisadora Martina Ahlert (UFMA); o escritor Alex Castro; o historiador e diretor do Núcleo de Estudos e Pesquisa do Instituto de Pesquisa e Memória Pretos Novos, Júlio César Medeiros da Silva Pereira (UFF); a historiadora da arte, educadora criativa e curadora britânico-nigeriana Temi Odumosu (Universidade. de Malmö – Suécia); e a fotógrafa, escritora e professora do ICP-Bard (EUA), a norte-americana Qiana Mestrich.

Um dos pontos altos da exposição é a videoinstalação Modos de Fala e Escuta (com 27 minutos de duração), que reúne o depoimento de sete mães negras sobre maternidade, racismo, memória, ancestralidade, violência e lutas cotidianas. Nesse sentido, outro destaque da mostra é a obra Mural das Heroínas, com 20 retratos de líderes negras, como Luísa Mahin, Tereza de Benguela e Nzinga de Angola às feministas Lélia Gonzalez e Beatriz do Nascimento, além de figuras políticas como Laudelina de Campos e Marielle Franco, entre outras, que simbolizam as conquistas sociais, a luta, a resistência, a voz e o lugar histórico da mulher negra no Brasil.

A exposição conta, ainda, com a minibiblioteca Mãe Preta, que reúne publicações de autoras negras contemporâneas e uma seção voltada para a literatura infantojuvenil, com títulos sobre protagonismo negro que podem ser consultados pelo público.

Dividida em oito séries, Mãe Preta apresenta instalações, colagens e intervenções em gravuras e fotografias, que, reunidas, propõem uma reinvenção poética da iconografia relacionada às mães pretas dentro de uma linguagem contemporânea, tendo como ponto de partida imagens fotográficas do acervo do Instituto Moreira Salles, do Rio de Janeiro, e releituras de livros com gravuras de Jean-Baptiste Debret, Johan Moritz Rugendas e outros artistas. Isabel e Patricia criaram intervenções nessas imagens com objetos ópticos, como lupas e lentes, que destacam a complexidade das relações das amas-de-leite com as crianças brancas de seus senhores e das mulheres escravizadas e seus próprios filhos em contextos domésticos, urbanos e rurais.

“De tão conhecidas, estas imagens são vistas de forma superficial e contribuem para um olhar normalizado sobre a vida dessas mulheres que desempenharam um papel fundamental na formação da sociedade brasileira”, diz Patricia. “Os trabalhos propõem uma nova forma de olhar essas imagens, de modo que a figura materna apareça no primeiro plano e não apenas como um detalhe da vida cotidiana e familiar nos tempos da escravidão”, completa.

Para esta edição, as artistas fizeram uma imersão nos contextos específicos de São Paulo e São Luís, para onde a exposição viajará após a etapa paulistana. Na capital paulista, as artistas seguiram o debate sobre o apagamento da história negra da cidade e, no Maranhão, realizaram entrevistas com lideranças femininas dos Quilombos Santa Rosa dos Pretos e Santa Joana, que resultaram em obras inéditas que serão apreciadas pelo público.

A abertura da exposição em São Paulo, dia 4 de outubro, contará com uma performance da carioca Jessica Castro (professora de Dança Educação, pesquisadora do Jongo, intérprete do movimento da dança afro-brasileira, artista de rua e militante do movimento negro) e da maranhense radicada no Rio de Janeiro, Glauce Pimenta Rosa (cantora, artista, gestora criativa de projetos culturais de arte e educação e ativista negra feminista), que também são protagonistas da videoinstalação.  Dia 6 de outubro, às 11h, haverá visita guiada e bate-papo com Isabel e Patricia.

O catálogo da exposição será lançado em 10 de novembro, na Galeria Mario Schenberg, em São Paulo. Na ocasião, haverá uma oficina gratuita com a escritora, poetisa e cordelista Jarid Arraes, cearense radicada em São Paulo e autora da coletânea “Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis”, lançada pela Pólen Livros em 2017.


Sobre as artistas

As artistas cariocas Isabel Löfgren e Patricia Gouvêa trabalham em dupla há mais de uma década. Realizaram a pesquisa e a exposição Banco de Tempo, na Galeria do Lago/Museu da República, no Rio de Janeiro, em 2012, com publicação homônima lançada em 2015. A dupla busca, em sua pesquisa artística, criar maneiras de relacionar lugares históricos e arquivos de imagens a debates atuais por meio da arte contemporânea. Mãe Preta é a sua segunda pesquisa de longa duração e foi contemplada com o Edital Fomenta, da Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro (2016), Edital de Exposições da Fundação Clóvis Salgado (2017) e Prêmio Funarte Conexões Circulação Artes Visuais (2016).

Galeria Mario Schenberg – Complexo Cultural Funarte SP

(Alameda Nothmann, 1058, Campos Elíseos)

Exposição: Mãe Preta

Patricia Gouvêa e Isabel Löfgren

Abertura: 4 de outubro, 18h

Visitação: de 5 de outubro a 25 de novembro. De segundas a sextas, das 11h às 19h, sábados e domingos, das 11h às 21h

Entrada franca

Mais informações:

(11) 3662-5177

funartesp@gmail.com